A transformação digital está transformando todos os setores industriais, e o mercado da moda não ficou de fora. Antes da chegada da inteligência artificial (IA), as estampas eram criações autorais, marcadas por imperfeições que conferiam autenticidade e demandavam um tempo significativo para sua produção. Hoje, a instantaneidade domina o setor, alterando profundamente a forma como o mercado consome. No entanto, essa agilidade, já começa a gerar desconforto entre produtores e consumidores do setor.
Com o auxílio da inteligência artificial, criar uma estampa tornou-se uma tarefa extremamente rápida, podendo ser concluída em apenas três segundos. Essa inovação tecnológica foi um dos temas abordados no primeiro dia da Future Print 2026, a maior feira da América Latina voltada aos mercados de serigrafia, impressão digital e comunicação visual. O evento, que acontece até o dia 17 de julho no Distrito Anhembi, em São Paulo, reúne especialistas e profissionais do setor para discutir tendências e inovações.
Durante a palestra intitulada “IA Generativa na concepção de estampas – Inovação estética ou repetição algorítmica?”, realizada no palco Talks Future Têxtil, a designer de estampas, marcas e produtos, e especialista em mercado de moda e consumo, Raquel Lucena, trouxe uma reflexão importante sobre o impacto da inteligência artificial no setor.
Apesar da agilidade e praticidade proporcionadas pela tecnologia, Raquel alertou para os riscos que o uso da IA pode trazer à identidade criativa das estampas. “Estamos perdendo a essência do que torna uma estampa única”, afirmou. A especialista destacou que, embora a IA seja uma ferramenta poderosa, é essencial preservar a autenticidade e a originalidade que caracterizam o trabalho manual e criativo dos designers.
Comparando o real com o algoritmo: quais as diferenças de uma estampa realiza por humano e uma feita por IA
Para entender melhor as diferenças, a especialista conduziu uma pesquisa comparativa entre estampas autorais, criadas por renomadas marcas, e estampas geradas por programas de inteligência artificial. O estudo revelou diferenças significativas, não apenas na estética, mas também na percepção de valor e autenticidade.
Enquanto feitas por humanos carregam a assinatura criativa de seus designers, as geradas por IA, foram qualificadas sem e profundidade e contexto histórico.
“As pessoas estão sentindo falta do fator humano”, destaca Raquel. A questão levanta uma discussão importante: a tecnologia, embora revolucionária, deve ser usada como uma ferramenta complementar, e não como um substituto para a criatividade humana. O desafio agora é encontrar um equilíbrio entre inovação tecnológica e preservação da identidade artística no mercado de estampas.

Infográfico: A Evolução da Moda e Seus Movimentos
A especialista lembra que a história da moda é apresentada através de uma evolução dividida em quatro grandes momentos, nos quais a difusão e a criação das tendências sempre foram influenciadas por alguma mídia ou tecnologia.
| Movimento | Período | Descrição | Impacto |
| Art-à-porter | Século XIX | Gravuras e ilustrações em jornais e revistas difundem as tendências da moda. | Uniformidade de estilos entre as elites europeias, com forte influência da corte francesa. |
| Prêt-à-porter | Século XX | Fotografia, cinema e TV aceleram a difusão e o consumo da moda. | Surgimento das grandes maisons, coleções de moda e um sistema globalizado de tendências. |
| Net-à-porter | Virada do Século XXI | A internet transforma a moda em um sistema conectado 24/7. | Difusão instantânea de tendências, redes sociais e e-commerce redefinem o consumo de moda. |
| IArt-à-porter | Hoje | A criação de moda passa a ser operada por algoritmos de inteligência artificial. | Agilidade na produção, mas com questionamentos sobre a perda de identidade e autenticidade. |
“É importante destacar que, nessa linha do tempo, especialmente após a pandemia, o consumo de moda passou por uma aceleração drástica. Antes, uma tendência demorava de dois a três anos para se consolidar, mas agora isso ocorre em apenas dois meses. Essa transformação marcou uma verdadeira virada de chave na maneira como consumimos moda”, afirma Raquel.
Mercado em aceleração
Segundo pesquisa de mercado da consultoria The Business Research Company, o setor está com uma projeção de crescimento de quase 40% até 2030.
“Foi um investimento de 1 milhão de dólares em inteligência artificial no mercado de moda, e essa projeção deve crescer ainda mais nos próximos quatro anos”, reforça Lucena.
A designer explica ainda que a IA está sendo utilizada em todas as quatro etapas da cadeia produtiva. “Desde antes da concepção, com a previsão de tendências e análise de comportamento por meio de relatórios, até a criação de croquis, desenhos técnicos, modelagens e a própria estamparia. E, também, na etapa final. Temos a venda, com campanhas publicitárias, cada vez mais feitas por IA ou em formatos híbridos”, detalhou.
Por outro lado, Raquel destacou um movimento contrário que vem ganhando força: “A consultoria WGSN já identificava essa tendência como o embate entre o artesanato humano e a moda de arte, algo que foi amplamente observado nas passarelas de outono-inverno de 2016 e 2017. O consumidor, de forma geral, está rejeitando esse excesso de perfeição – imagens muito polidas, tudo muito certinho, muito perfeito.”
Ela levanta um questionamento importante: a inteligência artificial está ampliando a autoria do designer ou transformando-o em um “curador” de padrões previamente definidos pela máquina?
E responde: “A solução está em valorizar a imperfeição, a textura e o traço manual, o que a WGSN chama de ‘renascimento do real’. A IA, de fato, amplia a autoria do designer, mas até que ponto ela é apenas um amplificador e não um transformador? Esse é o ponto que precisamos refletir.”
Vivemos, portanto, uma busca pelo renascimento do real. “Minha conclusão é que a inteligência artificial não substitui o criador, e acredito que nunca irá nos substituir. Pelo contrário, ela pode, através de suas próprias limitações, ressaltar o valor do traço humano como um novo marcador de autenticidade. O novo luxo será aquilo que é genuíno, feito à mão. Esse será o verdadeiro diferencial”, conclui a especialista.