A redução do consumo de água, energia e produtos químicos proporcionada pela estamparia digital representa um avanço para a indústria têxtil, mas não é suficiente para tornar um produto sustentável. A sustentabilidade precisa orientar toda a cadeia produtiva, desde a escolha das fibras e dos processos de acabamento até o consumo, o descarte e a reciclagem.
A avaliação foi apresentada por Camila Borelli, professora da USP e presidente da Associação Brasileira de Tecnologia Têxtil, Confecção e Moda (ABTT), durante palestra no Talks FutureTêxtil, na FuturePrint.
Segundo a especialista, a discussão sobre sustentabilidade na estamparia não pode ficar restrita aos impactos ambientais gerados durante a impressão. A análise deve considerar o ciclo de vida completo do produto, incluindo matérias-primas, substâncias químicas, equipamentos, processos produtivos e as possibilidades de retorno dos materiais à cadeia.
“A gente começa a discutir desde as matérias-primas, os processos, os químicos envolvidos e o acabamento, até chegar ao consumidor e ao ciclo de vida completo do produto, pensando em como ele pode retornar para a economia circular”
Estamparia digital reduz consumo de recursos
Entre as tecnologias disponíveis para o setor, a estamparia digital foi apontada como uma alternativa capaz de combinar ganhos ambientais e produtivos.
O processo permite reduzir o consumo de água, produtos químicos e energia, além de diminuir o tempo necessário para a produção. Esses fatores contribuem para uma operação mais eficiente e para a redução dos impactos associados à etapa de impressão.
A adoção da tecnologia, no entanto, precisa fazer parte de uma estratégia mais ampla. Para Camila, os benefícios obtidos durante a estamparia devem ser analisados em conjunto com os materiais utilizados e com o destino dado ao produto após o consumo.
Escolha dos materiais interfere na reciclagem
A possibilidade de reaproveitar ou reciclar um produto têxtil começa a ser definida ainda em sua concepção. Decisões relacionadas às fibras, aos acabamentos, aos produtos químicos e às técnicas de impressão podem facilitar ou dificultar a recuperação dos materiais ao final de sua vida útil.
“Quando pensamos no ciclo de vida do produto, analisamos desde a fibra até a forma como ele será descartado. Alguns materiais estampados, por exemplo, podem apresentar mais dificuldade para reciclagem, por isso é preciso entender cada etapa para buscar a melhor solução técnica”
A abordagem reforça que a sustentabilidade na indústria têxtil não depende apenas da substituição de equipamentos ou da redução de recursos em uma etapa isolada. Ela exige que empresas e profissionais avaliem os impactos e as possibilidades de circularidade desde o desenvolvimento do produto, considerando como cada escolha interfere nas etapas seguintes da cadeia.