O avanço de tecnologias como DTF e DTG ampliou as possibilidades de produção no mercado de estamparia, mas não retirou o espaço da serigrafia. A técnica manual continua sendo utilizada por marcas, artistas, produtores de uniformes e pequenos empreendedores, ao mesmo tempo que incorpora equipamentos e processos automatizados para atender tiragens maiores.
Para o empreendedor Rufus Gozzolli, que atua no setor têxtil desde 2003, a capacidade de adaptação ajuda a explicar a permanência da serigrafia no mercado.
“Tem muita coisa nova no mercado. Eu acredito que a serigrafia nunca vai morrer, está sempre evoluindo. Nós ensinamos a serigrafia raiz, manual, e mesmo com tanta tecnologia ao redor, como DTF e DTG, a serigrafia continua crescendo junto. É um mercado que está em constante expansão.”
Gozzolli trabalha com marcas e artistas e também é responsável pela Sprock Skate or Die, marca ligada ao universo do skate em São Paulo. A experiência com a produção das próprias peças permitiu identificar dificuldades enfrentadas por pequenos negócios, principalmente no início da operação.
A partir dessa percepção, ele desenvolveu um curso prático de serigrafia para iniciantes, realizado dentro de uma estamparia e direcionado a pessoas interessadas em atuar profissionalmente no mercado têxtil e serigráfico.
Automação amplia a capacidade de produção
Embora a serigrafia manual permaneça acessível para quem está começando, a automação ganha importância à medida que a empresa aumenta o volume de pedidos. Equipamentos podem melhorar a produtividade, padronizar processos e permitir que a operação avance para uma escala industrial.
“Eu acho que a automação vem para somar. Tudo que ajuda a fazer tiragens altas é positivo, especialmente para quem sonha em transformar seu negócio em uma indústria. É sempre bom investir em máquinas que vão facilitar essa caminhada de empreender.”
A escolha dos equipamentos, entretanto, deve acompanhar a realidade de cada negócio. Antes de ampliar a estrutura, o empreendedor precisa avaliar o volume de pedidos, os produtos oferecidos, a capacidade financeira e os objetivos de crescimento.
Negócio pode começar com estrutura reduzida
A entrada na serigrafia não exige necessariamente uma estrutura industrial. Segundo Gozzolli, equipamentos básicos permitem realizar os primeiros trabalhos e testar a atividade antes de investimentos maiores.
“Dedicação, vontade e sonhar. Empreender é a única forma de alcançar grandes resultados hoje. Não é fácil, mas é gratificante. Para quem quer começar, com um investimento inicial de cerca de R$ 500, já é possível adquirir rodo, tela e tinta e dar os primeiros passos. Mas, para quem quer crescer, é melhor investir em equipamentos. O mais importante é começar, tentar, e se não der certo, tentar de novo.”
Além do investimento inicial, o modelo de trabalho pode favorecer pequenos prestadores de serviço. Em algumas operações, o adiantamento pago pelo cliente ajuda a custear materiais e reduzir a necessidade de capital próprio para executar o pedido.
Uniformes, camisetas de marcas independentes, peças promocionais, produtos para eventos e coleções de artistas estão entre as possibilidades para quem pretende atuar com a técnica.
Conhecimento técnico reduz erros na produção
A aparente simplicidade do processo pode levar iniciantes a subestimarem aspectos como preparação da matriz, escolha da tinta, pressão do rodo, cura, registro das cores e características do tecido. Falhas nessas etapas afetam a qualidade da estampa, aumentam o desperdício e podem comprometer os prazos de entrega.
Por isso, buscar capacitação antes de estruturar uma operação é uma das recomendações do empreendedor.
“Buscar conhecimento é essencial. Nos cursos, ensinamos toda a técnica necessária para abrir uma estamparia e também falamos sobre o mercado. É importante estar preparado para os desafios e entender como funciona o setor.”
O aprendizado também precisa envolver gestão, formação de preços, atendimento, compra de insumos e organização da produção. Dominar somente a aplicação da estampa não garante que a atividade seja financeiramente sustentável.
Falta de mão de obra exige valorização profissional
A contratação e a retenção de profissionais aparecem entre os desafios enfrentados pelas estamparias. Como parte do conhecimento é adquirido durante a rotina de produção, a saída de um funcionário pode representar perda de produtividade e necessidade de um novo período de treinamento.
Gozzolli, que atualmente trabalha com a esposa em uma estrutura familiar, defende que salários e condições de trabalho são determinantes para atrair novos profissionais.
“A mão de obra é um problema em todos os setores de prestação de serviços, e na serigrafia não é diferente. Hoje, eu trabalho apenas com minha esposa, somos uma empresa familiar. Já tive quatro funcionários e enfrentei as dificuldades que todo empreendedor conhece. Para atrair jovens e novos profissionais, é preciso valorizar o funcionário, pagar bem e reconhecer o trabalho dele. Muitos empresários pecam ao não oferecer condições adequadas, e isso afasta bons profissionais.”
Além da valorização financeira, empresas que desejam formar equipes precisam criar processos claros, oferecer treinamento e mostrar perspectivas de desenvolvimento dentro da operação.
Serigrafia pode complementar tecnologias digitais
Na avaliação do empreendedor, o crescimento de processos digitais não deve ser interpretado como uma substituição automática da serigrafia. Cada tecnologia apresenta vantagens diferentes de acordo com o volume, o tipo de arte, o tecido e o resultado esperado.
Ele observa, inclusive, um movimento de profissionais que iniciaram suas atividades com DTF e passaram a incorporar a serigrafia ao portfólio.
“Eu vejo um crescimento muito grande. Muita gente que começou com DTF está migrando para a serigrafia, porque percebeu o potencial da técnica. Para quem quer prestar serviços, como produção de uniformes, é um caminho promissor. Além disso, empreender na serigrafia permite começar com pouco capital, já que é possível trabalhar com o adiantamento dos clientes.”
Essa combinação permite que estamparias escolham o processo mais adequado para cada pedido. Enquanto a impressão digital pode facilitar produções personalizadas e pequenas quantidades, a serigrafia mantém competitividade em determinados volumes e aplicações.
Durante a FuturePrint 2026, Gozzolli – que também faz parte do time de Embaixadore da feira, também destacou o papel do evento na aproximação entre profissionais, fornecedores e criadores de conteúdo do setor.
“A FuturePrint é sensacional. Empresas como a Gênesis estão trazendo muitas novidades para o mercado. É um espaço incrível para fazer networking, conhecer pessoas e se atualizar sobre o que está acontecendo na serigrafia. Muitos seguidores me encontraram aqui e disseram que me conhecem pelas redes sociais. É muito bacana participar da feira e ver como o mercado está unido e em constante evolução.”
Em um cenário de ampliação das tecnologias de impressão, a serigrafia segue como alternativa para quem pretende iniciar um pequeno negócio ou diversificar uma estamparia. O crescimento sustentável, porém, depende da combinação entre conhecimento técnico, controle financeiro, escolha adequada de equipamentos e capacidade de atender às demandas do mercado.